fevereiro 17, 2004

Noites de sortilégio – II

(continuação)

Mas, histórias de partir a respiração, eram as das bruxas e fadas, mais as dos espíritos e almas penadas e também as das palavras más.

«Sim, más palavras, o que é que cuidam, são piores que os micróbios das doenças modernas. Piores, bem piores, que para as doenças ainda ele se vão achando remédios, para as palavras más, muitas vezes, nem o arrependimento lava o mal».

E Ti Duarte dava exemplos:

«Olhe o Zé Coxo, Deus Nosso Senhor me perdoe, mas o pai dele, o Alforreca, era cá uma má língua!... Não havia mulher honrada na boca dele, não havia gente honesta, no dizer dele era tudo ladrões e vadios. E ainda se fossem só palavras... Toda a gente se lembra que ele desgraçou uma rapariguinha. A pobre, que não tinha mais que quinze ou dezasseis anos, ia todos os dias levar o almoço ao pai, que andava a trabalhar no campo. Um dia, o Alforreca, que já nesse tempo era homem casado, espreitou a miúda, meteu-se com ela, não só a desgraçou como mulher como lhe deixou uma perna toda roxa, que a miúda quase que nem se cura, andou com a perna inchada tempos sem fim, até se falava que ia ficar coxa. Afinal, olhe, pouco depois nasce o filho do Alforreca, o único que tem, e veja-se aquela miséria que até mete dó, Deus me perdoe, todo coxo e aparvalhado que é uma desgraça. Foi castigo, pode crer, elas cá se fazem cá se pagam, as vezes demoram mas pagam-se, pode ter a certeza.»

Ti Gracinda, reparando nos meus estremecimentos amedrontados, ralhava: «Ó homem, cala-te lá para aí com essas coisas que assustas as crianças.»

Mas o marido não lhe dava troco: «Isto são coisas da vida, o que é que pensam, as pessoas é que não acreditam. Se acreditassem que os maus pensamentos e as más palavras e o desejar e fazer mal aos outros, a nós mesmos é que nos vem parar, de uma forma ou outra, havia menos invejas e menos maldade no mundo, as pessoas eram melhores umas para as outras.»

Ficava-se um bocado a abanar a cabeça e depois acrescentava: «Eu percebo que as pessoas modernas não creiam nestas coisas, são coisas que parecem doutros tempos. Olhe, eu, por exemplo, também me custa a acreditar que os homens tenham ido à Lua...»

Cismava em voz alta: «Uma coisa tão pequenina, lá tão no alto, mas como é possível que tenham lá poisado homens? Ainda por cima, a Lua nunca é a mesma, está sempre a mudar de feitio e de tamanho...»

O meu irmão parava de brincar com o gato e desfazia-se em risos: «Ó ti Duarte, mas a lua é muito grande, parece pequena porque está muito longe.»

E explicava, com paciência trocista: «Está a ver aqui esta abóbora? A abóbora é o sol, que está parado, tal qual esta abóbora. À volta do sol anda a terra a girar e à volta da terra anda a lua.»

Para a explicação ser mais eficaz, ia buscar uma laranja e procurava outro fruto mais pequeno, uma ameixa ou uma amêndoa, por exemplo. Eu ajudava no exercício, segurando a laranja numa mão; o meu irmão segurava a ameixa na outra:

«A terra é aqui esta laranja que anda à volta do sol, a abóbora. E à volta da terra, isto é, da laranja, anda a lua, que é a ameixa. E tanto a terra como a lua giram, ao mesmo tempo, à volta delas mesmas». E ambos girávamos os frutos entre os dedos, com alguma inabilidade mas muito saber.

«Está a ver, Ti Duarte, se espreitar assim, nem se vê bem a ameixa toda, a laranja tapa a luz que vem daqui. O mesmo se passa com a lua, por isso é que acontecem as fases da lua.»

Ti Duarte coçava a cabeça e mal disfarçava espantos:

«Que meninos estes, tão novitos e a saberem tão bem estas coisas. Valha-os Deus!». Ficava uns segundos pensativos, a cabeça baixa. Mas logo acrescentava, num repelão:

«Mas eu, mesmo assim, não estou convencido, não me entra cá na cachimónia essa de homens poisados na lua.»

Ríamos os dois, eu e o meu irmão, divertidos, perdidos de gargalhadas.

Mas, do que eu gostava mesmo, era das histórias de bruxas e fadas. E insistia: «Conte lá, Ti Duarte».

«Ora», dizia ele, a encolher os ombros, «Isso, agora já não há. Já não há bruxas nem fadas. Antigamente é que havia muitas.»

Mas, talvez para me agradar e desvanecer as más impressões dos agouros e más palavras, ou talvez porque conversa era com ele, Ti Duarte lá acabava por ceder:

«Olhe, aqui mesmo ao pé da minha casa, vi eu montes delas. Ali antes de chegar ao poço, onde está a alfarrobeira grande, havia um ninho de fadas que nem queira saber. Quantas vezes não ia eu a passar por lá, quase a chegar, e elas, sentindo-me os passos, pfff, veeee, escapuliam-se no ar, a voar. Só lhes via a luz, o rasto delas no ar.»

«E bruxas, também viu algumas?»

«Oh, menina, o que eu mais vi na minha vida foram bruxas...» Mordia o cigarro com mais força e repetia: «Bruxas, quantas bruxas não houve na minha vida!... Olhe, quando eu era jovem, assim mais ou menos como você e o seu mano, e até mesmo mais novito, morava eu já então nesta casa, que era dos meus pais. Éramos uma família grande, filhos teve a minha mãe onze, todos assim uns a seguir aos outros.»

Fazia com a mão o gesto das alturas descendentes e continuava: «Os dois mais velhos foram raparigas, depois nasci eu, a seguir o meu irmão Alberto, mais umas quantas raparigas e depois é que vieram mais rapazes. Pois foi por isso, por eu ser o rapaz mais velho, é que tive de ir cedo para a lida do mar com o meu pai, que era pescador, Deus o tenha em paz.»

A senhora Gracinda descansava a cabeça na palma da mão e escutava as histórias do marido com um sorriso tão redondo e brando como o rosto emoldurado pelo lenço escuro. De vez em quando, com a tenaz comprida, vigiava o borralho no fogareiro, onde duas batatas doces assavam lentamente. A minha mãe cruzava os braços sobre o peito, recostava-se nas costas da cadeira de palha e logo o gato, a escapulir-se às diabruras do meu irmão, lhe saltava para o colo. Bichaninho, bichaninho, bichaninho... O gato enrolava-se e voltava a enrolar-se até se afundar, ronronante, no aconchego do colo.

«Pois era nas noites de inverno, quando eu tinha de me levantar lá para as três ou quatro da manhã, para ir à pesca com o meu pai, que eu encontrava muitas bruxas por aí. Bruxas e labesomes.»

«Bruxas e quê?»

«Labesomes, menina, homens que se transformam em lobo nas noites de lua e andam por aí a cumprir o fado, a penar.»

«Ah, lobisomens...», corrigia eu a pronúncia.

«Pois, eu cá não sei falar assim bem como a menina e o seu mano falam. No meu tempo, só as pessoas muito ricas é que tinham estudos. Mesmo a escola primária não era uma coisa que as pessoas fossem obrigadas, não era como agora, que todas as crianças têm de ir. Mas olhe que eu ainda cheguei a ir à escola, sabe?... Ainda fui uma meia dúzia de dias. Mas tão cansadinho de andar na lida com o meu pai que mal chegava à escola, mal me acomodava lá na carteira, pumba. Adormecia cá de um jeito que ninguém me conseguia pôr em pé. Até a professora me disse que o melhor era ir para casa dormir e só voltar à escola quando conseguisse estar de olhos abertos. Nunca mais lá pus os pés.»

Ti Duarte levava aos lábios rugosos, com as pontas dos dedos, o resto mole e meio apagado do cigarro e aspirava umas quantas vezes, com força, até um clarão desmaiado luzir na ponta do cigarro.

«Pois, foi assim... Ui, nesse tempo é que as noites de inverno eram frias!... Nem queira saber, era de partir os ossos. Eu levantava-me mais o meu pai, calçávamos as botas e eu punha uma saca de sarrapilheira, dessas de guardar batatas, aberta ao meio, pela cabeça. Bebíamos um copo de aguardente cada um e lá abalávamos.»

«Credo!», afligia-me eu, «Não me diga que era tão novito e já bebia assim aguardente?»

«Mas é que tinha de ser. Se não bebesse a aguardente não aguentava o frio. Gelava-se-me o corpo. Por isso é que tinha de beber. E, vá lá, o pior é que muitas vezes nem para comprar a aguardente ele havia...»

«Então, mas nem sequer comia qualquer coisa?»

«Pois claro que não, já tinha comido ao jantar. Ia agora comer a meio da noite?!... Estava mal era quando não havia mesmo nada para comer. Ai, tantas vezes que o meu jantar foi uma sardinha em cima de uma cortiça...»

«De uma cortiça?...»

«Pois, quando se acabava o pão. Tínhamos de pôr o peixe em cima de qualquer coisa, não era? Púnhamos em cima da cortiça. Sabe lá o que a vida era noutros tempos!... De Verão ainda a coisa escapava, ía-se ao mar e havia trabalho nos campos. Agora de Inverno, havia épocas em que chovia e fazia vendavais semanas a fio. Ao mar não se podia ir, em terra acabava-se o trabalho e em casa das pessoas acabava-se o comer. E havia a guerra. A Grande Guerra, onde morreu um mar de gente e que destruiu meio mundo à volta. Felizmente para nós, a guerra não era cá, mas mesmo assim chegavam-lhe cá os ventos, havia uma escassez de coisas que nem queira saber, farinha para o pão, arroz, carne, sabão, coisas assim. Só quem tinha muito dinheiro é que lá ia arranjando alguma coisa, porque era tudo muito bem pago e arranjado assim por baixo da porta, à socapa, está a ver?»

Meneava a mão em concha, a sublinhar com o gesto a explicação, e os olhitos muito vivos piscavam: «Pois era, e então em casas com muitos filhos, nem queira saber, aquilo era uma fominha de partir as entranhas do estômago. Ai, tantas vezes que, na casa dos meus pais, se teve de repartir por todos o que havia e só dava uma sardinha a cada um. Uma sardinha em cima de uma cortiça...»

Eu ficava a ouvi-lo, os olhos muito abertos, enormes, fixos de pasmo, sem mesmo pestanejar.

«Coisas que já lá vão...», continuava o velho que, quando engrenava, tinha para todo o serão. «Mas olhe, quer saber, era nessas noites que eu costumava encontrar-me com as bruxas. Era quase sempre em noites muito escuras e feias, com vento ou com chuva. Eu saía de casa com a saca pela cabeça, a tiritar de frio, pois a aguardente aquecia um pouco o estômago mas não tinha força para chegar à ponta dos pés e das mãos, que iam geladinhos. E eu cheio de medo. Medo dos vendavais, medo do mar, medo de não se apanhar peixe, medo da fome. Era uma criança, por isso não é de estranhar. Pois, as bruxas andavam por aí, pois é de noite, no escuro, pela calada, que elas gostam de sair para fazerem lá as patifarias delas. E não foi uma, nem duas, mas muitas as vezes que elas passaram por mim...»

«Ora, Ti Duarte, eu não acredito nisso», dizia-lhe, incrédula.

«Tão certo como estarmos aqui nesta cozinha!»

«E as bruxas, o que é que lhe faziam? Faziam-lhe mal?»

«Pois, o que é que pensa a menina que são as bruxas? São pessoas más e invejosas, que querem tudo para elas, e que, por isso, fazem feitiços e maldades ao próximo.»

«Mas, conte lá, Ti Duarte, que feitiços lhe faziam?», insistia eu, curiosa.

Ti Duarte coçava os cabelos ralos e embranquecidos e abanava os ombros magros: «Oh menina, então se eu já lhe contei tudo o que penei na vida, os frios, as fomes, os sonos mal dormidos, os trabalhos pesados, pois que mais feitiços quer que eu lhe conte?»

Ti Gracinda arredondava ainda mais o sorriso, dava volta às batatas doces no borralho e alegrava-se: «Estão quase assadinhas».

Mas nunca o serão terminava sem Ti Duarte me apaziguar: «Não vá para casa com medo, menina. Olhe que, agora, já não há destas coisas. Já não há bruxas.»

E oferecia-me, a mim e a meu irmão, as batatas doces, quentinhas, que a senhora Gracinda tirava do borralho com a tenaz comprida e embrulhava em duas voltas de papel pardo.

(continua)

anamar - 1989

Publicado por vmar em fevereiro 17, 2004 06:01 PM
Comentários

Uma agradável surpresa... Não sabia que a Anamar escrevia.

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em fevereiro 17, 2004 11:25 PM

Pois escreve Francisco. Sugiro que entres na zona temática, no "anamar" e leias a Morte abreviada de Manuel Cardoso, o meu preferido.

Afixado por: vmar em fevereiro 18, 2004 12:41 AM

Esqueci de referir que estes contos foram escritos há cerca de quinze anos. Entretanto muita coisa mudou....

Afixado por: vmar em fevereiro 18, 2004 12:43 AM

Francisco, falta ainda acrescentar que “anamar” ( com “a” e não com “A”) é apenas endereço de correio electrónico de Ana Marques, e não tem nada a ver com qualquer outra Anamar.

Afixado por: vmar em fevereiro 18, 2004 06:41 PM

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Afixado por: finance stock em novembro 2, 2004 06:18 PM